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25-01-2022

“Esta é a ditosa pátria minha amada”

“Esta é a ditosa pátria minha amada”

“Esta é a ditosa pátria minha amada”

Em “A Portugal”, Thomaz Ribeiro definia estas nossas terras como “Jardim da Europa à beira-mar plantado”. Que justa descrição para um país naturalmente belo. Mas não é só de natureza que se faz um país, uma nação. Vou deixar o lirismo e entrar nos números que, evidentemente, pioraram com o cenário pandémico.

Portugal decresceu com a pandemia, é evidente e seria praticamente inevitável. A questão não é essa. Portugal, em 2020, caiu em PIB, 8,4% face a 2019, o que equivale a 1.9 pontos percentuais (p.p.) a mais que a média da UE. Decrescemos mais que os nossos competidores diretos do Leste e pior que nós, só mesmo os nossos vizinhos do Sul, Espanha e Itália.

Regra a não esquecer: quando se atinge o fundo de algo, não se desce mais. Naturalmente, acabada a pandemia, crescemos 4.8%, nas previsões do Banco de Portugal, menos 0.3 p.p. que a média da UE. Em suma, caímos mais e crescemos menos, logo estamos pior que em 2019, tanto no ponto de vista absoluto, como relativamente à UE. No final do ano passado, eramos o 2º país da OCDE com maior queda económica face a 2019 e ainda estamos 4,1% abaixo. À data de hoje, 24 dos 38 países da OCDE já recuperaram o perdido face ao período pré-pandémico.

O cenário pós-pandemia é completamente desolador, mas para avaliarmos a qualidade da saúde da nossa economia temos de olhar para o que tínhamos antes de 2019. Se estivéssemos bem, só tínhamos de nos preocupar com o voltar ao bom nível novamente. Como não estávamos, não basta a tentativa vã e inócua de traçar como objetivo níveis pouco satisfatórios.

Cerca de ¼ dos trabalhadores a tempo completo auferem o salário mínimo. Realidade que se tem vindo a adensar pelo aumento gradual do salário mínimo. É também verdade que o salário médio aumentou, mas não acompanhou o aumento do salário mínimo, ou seja, estão mais próximos. O aumento do salário mínimo leva, evidentemente, ao aumento do salário médio e o aumento deste nos últimos anos tem sido impulsionado pelo aumento do primeiro.

Mais do que o salário médio devíamos olhar para o salário mediano. Este não é afetado pelo leque salarial, ao invés do salário médio, e só será afetado pela subida do salário mínimo quando este chegar ao percentil 50, ou seja, à própria mediana. O salário mediano, como expectável, está bastante abaixo do salário médio e espelha ainda melhor a periclitante situação da economia portuguesa.

Um estudo feito pela FFMS em 2021 mostrava que, em 2018 (números pré-pandemia) 11% dos trabalhadores eram pobres e que só 13% dos pobres eram desempregados. Para além disto, 1 em cada 3 pobres eram trabalhadores com trabalhos estáveis, ou seja, com vínculo laboral sem termo.

É verdade que nesta pré-campanha eleitoral o crescimento económico e os baixos salários foram tema de debate, mas a pobreza enquanto preocupação em si não. Não devemos também esquecer as implicações da pobreza, principalmente da pobreza infantil, no bom funcionamento do elevador social.

Sem elevador social não há democracia funcional efetiva, nem economia saudável e disponível a dar o seu máximo. Escrevo para leitores economicamente letrados e familiarizados com a problemática de que vos falei, mas isto nunca nos deve tirar a preocupação social que advém da insalubridade do nosso modelo económico.

Por detrás de todos os números estão pessoas, estão famílias. Por detrás de cada indicador mau há pessoas afetadas e vidas não concretizadas. Quando vemos e lemos sobre este país que falha aos seus, lembremo-nos que, em última instância, é desigual e injusto. Lembremo-nos que no fim são jovens, como nós, que sem responsabilidade ficam amputados de oportunidades, que sem culpa são menos do que o que podiam vir a ser.